domingo, 28 de abril de 2013

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É estranho voltar nesse blog, ler todas essas coisas de anos atrás, perceber o quanto as coisas mudaram, o quanto eu mudei. Penso em deletar o blog, em começar de novo em outro lugar... mas pra quê? Com qual finalidade eu precisaria desfazer esse blog? Por que eu não quero encarar o que fui? Do quê eu quero fugir? Não faz sentido pra mim. Eu estaria apenas tentando dissimular aquilo que um dia fui e coisas que vivi, justamente porque eu sei que aquilo que fui ainda permanece de alguma maneira em mim - por meio das memórias e dos resquícios de sentimentos vividos que ficaram impressos em mim. Porque sim, esses resquícios ficam. Não que eles fiquem em forma de sentimento, propriamente dito; talvez, em forma de "meta-sentimento", ou sentimento do que um dia foi sentimento. Não sei dizer bem. Releio as postagens do passado e fico deveras perplexa com o quanto fui ridícula em vários momentos da minha vida. Sim, ridícula. Ridícula em pensar que poderia fazer o que fiz com as pessoas. Ridícula em pensar que poderia fazer o que fiz comigo mesma.

Mas agora passou. E só o que fica é o resquício - aquele borrão que não sai nem esfregando com água sanitária. E apesar de ser um mero borrão, ele ainda assim incomoda, até pesa às vezes. Mas se aprende a conviver com borrões - com vários borrões - ao longo da vida. Pelo menos é o que eu espero.
[alguns borrões são coloridos e belos e extremamente nostálgicos - esses não trazem tristeza, apesar de às vezes trazerem dor; mas não se pode pensar em alguns deles sem sentir asco.]

Já não escrevo nesse blog com tanto drama, escolhendo as palavras pra parecer algo que nem sei o que é (e nem para quem). Já não escrevo com tanto pudor, talvez por não me importar tanto quanto antes com o que vão pensar de mim. De tudo isso, o que me conforta é sentir que, enfim, já não sou a mesma - talvez ridícula em alguns aspectos, mas não mais ridícula como antes.

Sinto que só venho nesse blog quando sinto uma inquietação que tem que sair. No presente momento, a inquietação tem sido maior do que eu. E o fato de não poder fazer nada a respeito aumenta ainda mais a sensação. Enfim. (faço questão de terminar o texto sem uma frase bonita ou impactante, só assim.)


domingo, 30 de setembro de 2012

Da Pureza

Acho que tá na hora de eu voltar a escrever sobre algo que não seja acadêmico e nem filosófico.
Acho que tá na hora de me voltar pra mim mesma.

Tenho andado (ou melhor, corrido) tanto, mas tanto nos últimos meses, que não sei mais onde parei. Ultimamente, tenho me resumido em obrigações com horários, com reuniões de trabalho e com artigos de filosofia. "Tenho que isso", "preciso daquilo", "vou chegar atrasada", "não posso perder o foco". A não ser por algumas pitadas de alegria de fim de noite, em que a presença dela me faz esquecer (quase) toda essa correria, e o abraço forte me consola de toda dor.

Sinto que não consigo me dar por inteira em nada que tenho feito, porque é impossível mesmo. É impossível ser mil pessoas diferentes num dia, sem que uma se confunda com outra eventualmente.

No fim das contas não é nada demais; acho que tô virando gente grande, e só. Mas é doído, é pesado, é massacrante, ter que se dividir entre a mulher do trabalho, a mulher do estudo, a mulher dona-de-casa (sim, quem diria!), a mulher social, a mulher família, a mulher amante... e, finalmente, a mulher simplesmente, a mulher eu. Cadê essa mulher?

Acho que tá escondida num dos recantos de minha infância violentada, cuja cor e inocência foram roubadas por situações das quais nem me lembro direito. E essa mulher não se esconde somente na infância, mas também em uma juventude igualmente violentada, cujo amor-próprio e força foram arrancados com tamanha crueldade e insensibilidade como quando arrancam um brinquedo da mão de uma criança - daquela mesma criança que perdeu sua inocência sem nem saber porquê.

Tá mais do que na hora de deixar isso pra trás. De perdoar. De perceber que isso não me pertence - e nem nunca pertenceu - porque não veio de mim. Tá mais do que na hora de enxergar que esta mulher não se resume nesses pequenos abusos do passado, assim como não se resume nas miríades de obrigações do presente. Esta mulher possui, sim, cor, amor-próprio, força e coragem; por mais que tenham sido arrancados os galhos, a raiz permaneceu intacta: tá mais do que na hora de deixar as flores se abrirem.

E aquela inocência, ela ainda existe em mim, mesmo que tímida e receosa, e seus frutos podem ser percebidos naqueles momentos puros e belos em que se olha pro céu e se sente o coração bater forte.

Ana e Paulo, minha força e inocência é toda por vocês.


domingo, 24 de junho de 2012

Redescobrir


Como se fora a brincadeira de roda
Memória
Jogo do trabalho na dança das mãos
Macias
O suor dos corpos na canção da vida
História
O suor da vida no calor de irmãos
Magia

Como um animal que sabe da floresta
Memória
Redescobrir o sal que está na própria pele
Macia
Redescobrir o doce no lamber das línguas
Macias
Redescobrir o gosto e o sabor da festa
Magia

Vai o bicho homem, fruto da semente
Memória
Renascer da própria força, própria luz e fé
Memória
Entender que tudo é nosso, sempre esteve em nós
História
Somos a semente, ato, mente e voz
Magia

Não tenha medo, meu menino povo
Memória
Tudo principia na própria pessoa
Beleza
Vai como a criança que não teme o tempo
Mistério

Amor, se fazer, é tão prazer, que é como se fosse dor...


(Gonzaguinha)                                                                                      

sábado, 12 de maio de 2012

E como é bem do meu feitio, me vejo em outro momento de transição.

Tô um caco, quando devia estar explodindo pelos "êxitos" que vêm me acompanhando ultimamente.
Não quero que esse blog se torne um diário, ou algo do tipo. É só catarse sem sentido e sem pretensão.

....

Quer saber? Não quero falar mais nada.

sábado, 5 de maio de 2012

Random


Minha vida é feita de pedaços.

Pedaços feitos de momentos.
Momentos de transição.
Sou um devir.

E o que fica é o que foi - reelaborado, reinterpretado, re-relacionado.
Sou um devir permanente. Um mutante imutável. Uma contradição das partes que gera contradição em termos.

Minha vida é feita de pedaços - paradoxais e edificantes.

Ah, vida minha, o que te faz tão minha?


sexta-feira, 23 de março de 2012

Sobre névoa e cor


O fio que demarca um indivíduo limita seu espaço enquanto um sujeito. O espaço existente entre um sujeito e outro é uma lacuna - mais que isso, um abismo. O abismo que separa dois sujeitos não se limita à mera contingência da distância, ou do afastamento físico. É, na verdade, inevitável, mesmo que não haja distância física alguma.

A impossibilidade de enxergar o chão do abismo faz com que o sujeito se afunde cada vez mais em si mesmo ao procurar por seu próprio chão; a impossibilidade ainda maior de enxergar o outro lado do abismo reduz o sujeito à sua própria existência medíocre e aprisionada, permitindo apenas o mero vislumbre da paisagem distorcida do outro, tal como um horizonte longínquo e nebuloso, em que montanhas se confundem com o céu cinzento.

E a eternidade de cada um, condicionada à efemeridade da condição humana, torna também eterna a tentativa de interpretar - em vão - o comportamento e os reais anseios do outro. É uma necessidade quase carnal de conseguir ultrapassar o fio de si mesmo e dar uns passeios por aí.

Isso me lembra das mônadas de Leibniz e dos filmes de Bergman. Me traz a imagem de céu nublado e silêncio. Mas também me remete à curiosa e extraordinária capacidade que o ser humano tem de superar - ou ao menos contornar - a pesada realidade do abismo ao seu redor. Como se fosse uma capacidade de auto-encantamento - auto-ilusão, talvez? - que, por um feliz acaso, é compartilhada com o outro.

E aí, o mundo vira cor.

[reflexões sem rigor sobre a simplicidade do ser em mim]


domingo, 29 de janeiro de 2012

Lente embaçada


Os acontecimentos dos últimos tempos passam pela minha cabeça feito imagens de um filme inacabado. As imagens, armazenadas com esmero e minúcia em minha memória, retratam uma realidade cuja própria realidade se dissipará em breve. Observo todos os detalhes: a feição, o olhar, os cachos, a pele, a boca, as mãos. O cheiro fresco e suave. O silêncio, que me liberta da obrigação de falar com palavras. 

Afundo minha cabeça no travesseiro, tentando esconder o nó na garganta que sobe pros olhos, apertando-os com força contra o colchão e contra mim mesma, enquanto minha mente reúne as impressões de todos os meus sentidos e tenta reconstruir um quadro com o máximo de realidade possível. 

É um belo quadro.

E eu me vejo entre o quadro e a outra realidade que se aproxima a cada dia, sem saber pra que lado vou. Organizo as ideias, respiro fundo e tento ter uma visão acurada. Mas que lente mais embaçada é essa? "Ah, Stephanie, você sempre se esquece que sentimento a gente não racionaliza."

É. Eu também me esqueço de que muito muda com uma palavra, com um gesto - ou com a falta de ambos. Me esqueço que o tempo devora tudo. Que me sentir idiota, culpada ou com raiva de mim mesma é sentença de morte. Que sentimento embaça a lente e impede a visão do limite entre verdade e aparência; entre sensatez e ridículo. 

E fico aqui, no momento da transição, sem ousar me mover ou decidir pra que lado vou. Colecionando todos os cheiros e toques e olhares e palavras e instantes; guardando todos pro quadro que vai me acompanhar depois dessa realidade virar memória. 

domingo, 1 de janeiro de 2012

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"Nesse meio tempo, vamos abolir com um sopro o tique-taque dos relógios. Chegue mais perto de mim." (V.Woolf)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Pois é.

    Quando eu tenho algo a dizer, quase sempre me esqueço das palavras e quase nunca encontro o momento certo pra dizê-las. A boca insiste em falar de trivialidades e o olhar se desvia, tímido, acanhado e vencido. O que quero dizer se refere a uma realidade, que não é meramente possível, mas que é concreta, ainda que queira ser exprimida em forma de palavra, apenas - apesar de poder ser sentida de maneiras não-linguísticas.
     Mas o que é dito pode exprimir aquilo que quero dizer? Aquilo que realmente quero dizer, que existe em mim de maneira desajeitada e até um pouco velada, como algo que se guarda com cuidado pra não quebrar?     Afinal, o que eu quero dizer? Se não sei colocar em palavras, não sei o que quero dizer. 
     Então não digo.
     Mas e quando o problema não é saber o que se quer dizer, mas simplesmente ter medo de dizer? Medo de sentir, de admitir, de baixar a guarda, de dar a cara a tapa e de não-se-sabe-mais-o-quê. Medo de viver, em resumo. No entanto, eu vivo, inevitavelmente.
     Mesmo que as palavras não venham e mesmo que o momento nunca seja oportuno pra dizer coisa alguma, eu vivo, ignorando todos os inúmeros devaneios e antecipações 'sensatas' de uma pessoa tipicamente ansiosa e insegura como eu. E vivo mais ainda, pra sentir o que não é exprimido por palavras e fazer o que pode ser expressado sem elas. 

(É curioso: depois de tudo que escrevi, sinto que acabei dizendo em outras palavras o que tanto reluto em dizer de forma simples e clara. E se isto está aqui, visível, me parece que esse medo tem sido extraído vagarosamente ao longo do tempo, mostrando suas marcas apenas na prolixidade com a qual me exprimo. Falo em mil palavras o que pode ser dito com um par delas, tentando, talvez, preservar a peculiaridade do sentimento, com mil descrições detalhadas dos poréns e dos porquês. Mas, no fim, chego no mesmo lugar, ou pelo menos pareço chegar. Quem sabe um dia não corro o risco de tentar o caminho mais simples?)


terça-feira, 29 de novembro de 2011

Devaneios céticos


A dúvida é uma fonte inesgotável de pensamentos.
Me debruço em uma possibilidade, e logo outra me vêm à mente, que puxa uma terceira e quarta, ad infinitum, se não houver um agente exterior que modifique o encadeamento.

A dúvida é um amontoado de devaneios.
Devaneios que se vestem de realidade possível e provável, que se adequam à expectativa daquele que devaneia. Devaneios outros que, inseguros e ansiosos, solapam as estruturas dos primeiros e mostram a outra realidade possível, aquela não esperada, ou não ansiada.

A dúvida é apenas um mundo de possíveis.
É a suspensão total da crença em tudo aquilo que se deseja saber como verdadeiro; ou como falso. É a admissão de que nada pode ser feito para saber; é o reconhecimento da impossibilidade de conhecer o desconhecido.

O exercício da dúvida é constante em minha vida. E, agora, não poderia ser diferente.
Com breves momentos de angústia e uma pitada melancólica ele se restabelece, tranquilo, em seu devido lugar, depois de toda a dose de adrenalina dos últimos tempos. Pela minha dúvida me reconheço, coisa rara pra gente como eu.

E assim me deixo sentir, já que a dúvida não pesa.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Preciso dormir e não consigo.
Aí vim pra cá.
Mas não sei o que escrever. Escrever o quê, quando todo o seu fiozinho medíocre de criatividade está envolvido num desafio tão grande que ocupa quase todo o espaço?

Talvez o grande desafio, na verdade, seja eu.

- Momentos bons que me tiram a noção do tempo têm tornado meus dias mais coloridos e leves (caminhos esquecidos e recruzados; caminhos de guerreiros e donzelas; de graminha do parque e seção de cinema atrasada; de café com cigarro e saquê sem kiwi).


quinta-feira, 28 de julho de 2011

"É chegada a hora de escrever e cantar..."

Hoje foi um dia bom.

Acordei pensando no que eu tinha e no que eu queria fazer ao longo do dia. E ambos, curiosamente, coincidiram: o que eu tinha pra fazer era o que eu queria. A manhã passou ligeira e produtiva: algumas páginas entendíveis de Kant são pequenas alegrias diluídas em argumento.

Andei pensando muito sobre coisas sem sentido, até conseguir enxergar algum sentido nessas coisas; talvez por inclinar-me mais a alguma opinião tendenciosa, ou talvez não. Penso que nós inevitavelmente fazemos nosso sentido, cada um de nós.

A liberdade é uma sensação peculiar. Ela está sempre aqui, latente; mas dificilmente é sentida e quase sempre fica marginalizada em mim, como se eu fosse um carrasco me punindo a todo instante - justamente nos momentos em que a dita liberdade ameaça emergir. Mas me pergunto: por que ser carrasco de mim? Pra quê ser carrasco de mim?

Acordei sentindo a liberdade tomando conta de mim. Isso pode parecer piegas e clichê, mas é justamente por causa dessa liberdade que eu digo: que seja piegas e clichê, foda-se. A minha liberdade em sentir liberdade não se importa mais com isso. O carrasco agora caiu do pedestal, quebrando-se em tantos pedaços que sua restauração se tornou impossível.

Respiro o ar fundo e vejo um horizonte de possibilidades se reabrindo pra mim: um horizonte que sempre esteve aqui, mas cuja neblina me impedia de enxergar. Não que não haja mais neblina: ela é essencial, pois sem ela não há o mistério, que me é tanto estimado. É só que agora descobri que posso andar por entre a neblina sem me assustar a todo momento com o desconhecido; pois agora a neblina é leveza, e não temor; é mistério, e não insanidade. É até possível enxergar algumas coisas próximas, ou se aproximando - e é bom senti-las assim, naturalmente, sem dor. Sem peso.

Demorou e doeu. Mas agora retorno ao mundo, querendo-o - e me querendo - novamente por inteiro.


quarta-feira, 27 de julho de 2011

Sobre Mortes.

A minha morte é lenta.
É daquelas que fazem o corpo se debater, num incessante movimento involuntário de angústia, melancolia e aflição.
A minha morte é grande.
É daquelas que se passam num imenso teatro, em dia de estreia, de casa lotada e público exigente.
A minha morte é carne.
É daquelas que sangram, que trazem no suor salgado a essência daquilo que deve ser expelido.
Deliciando-se com os músculos exaustos que lutam pra manter o controle, ela, a minha morte, sedenta de medo e ilusão, ultrapassa os limites da própria carne, explodindo as veias e nervos e quebrando as articulações; o suor e o sangue se misturam e correm pela minha pele, formando um mosaico púrpura com sutis linhas rosadas - que me lembram o pôr-do sol de uma tarde de outono.
A minha morte é parto.
É o mesmo pôr-do-sol brilhante e púrpura que explode em cor e luz. É o rebentar do eu que enfim consegue respirar, depois de tanto tempo preso na mente e no peito.
"Rebento", como diria uma grande artista. Rebento em força e dor, em coragem e entrega, seguindo paradoxalmente nesse corpo rebentado e morto de tanta vida.




segunda-feira, 11 de julho de 2011

Eu não sei falar de amor.

Se me perguntarem: "o que você sente?", e eu não souber responder, não é por vazio, é só por indeterminação. (ou será que é por vazio?)

Por outro lado, não sei não ser melancólica a todo instante; no que sinto, no que penso e no que digo. Posso parecer clichê às vezes; posso parecer forçada. Mas mais forçado seria tentar me expressar de outra maneira.

Sei que isso não faz o menor sentido, e nem é pra fazer mesmo.

É que eu não sou capaz de pedir respostas que não sei se quero ouvir; mas ficaria bem feliz de ouvir respostas sem precisar de pedi-las. É o mínimo de consideração que espero: pelo que foi. Pela sinceridade que sempre tive, mesmo com relação a fatos que sempre soube serem culpa minha.

Não quero explicação, e nem pretextos, e nem escusas. Não quero nada, na verdade. Nem sei mais o que queria. Aliás, sei: queria saber falar de amor.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Constatação

Era uma vez uma menina que gostava de sonhar.

Ela sonhava com imensos campos verdes floridos, onde seu corpo, flutuante, passeava sobre as plantas rasteiras. Ela não tinha asas, mas voava mesmo assim.

Ela sonhava com pessoas sem rosto mas cheias de algo que em sonho se assemelha com afeto. Com o afeto mais puro que um indivíduo possa imaginar: e as pessoas sem rosto de repente eram identificadas pela menina como as pessoas que faziam parte de sua vida real. As pessoas não tinham rosto, mas ela acreditava naquele afeto mesmo assim.

Era uma vez uma moça que gostava de viver.

Ela vivia com imensos prédios e construções ao seu redor, onde seu corpo, pesado, se debruçava sobre as mesas de bar e sobre braços - e abraços - de desconhecidos. Ela não tinha chão, mas caminhava mesmo assim.

Ela vivia entre pessoas de muitos rostos e facetas, mas vazias de algo que ela nunca soube muito bem o que era: e as pessoas de mil rostos se transformavam a cada segundo, e ela, a menina, confundiu o afeto sem rosto de seus sonhos com aqueles rostos ocos e secos de qualquer tipo de afeto. As pessoas tinham mil rostos, mas ela acreditava naquele afeto mesmo assim.

Era uma vez uma mulher que não gostava de sonhar.

Uma mulher que vivia entre pessoas e construções, com e sem facetas, com e sem sentimentalismos - e afetos. Uma mulher que havia percebido o quão vazio e ilusório um sonho pode ser, porque por mais que se sonhe, e por mais que se goste de sonhar, e por mais que se queira sonhar - e como ela sonhava alto! - não adianta: o afeto dos sem-rosto de seus sonhos nunca se corresponderia aos milhares de rostos que ela tem que encarar todos os dias. E, por mais que ela tentasse colar esses rostos de realidade naqueles afetos ilosórios, um dia eles sempre acabavam se descolando.

Até que um dia essa mulher, essa moça, essa menina descobriu: era só com a solidão que o rosto invisível tomaria forma de afeto. E sozinha, encontrou seu próprio rosto naquele afeto ilusório, afeto que, a partir de então, tomara vida e se tornara real. Afeto que se escondia em si, e que nunca seria possível de resgatar se ela não percebesse o quão mesquinho e vil um pseudo-rosto afetuoso e alheio poderia ser.

Era uma vez uma mulher que aprendeu a gostar de si mesma.

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[Ela perdeu a ilusão; mas sonha, mesmo assim.]

domingo, 15 de novembro de 2009

Hoje descobri um cd muito legal e fui procurar saber sobre o resto da obra musical de seu autor. Quando encontrei um site - o único sobre ele - subitamente cliquei. E, bom, o site não estava mais disponível.

Não sei se por causa desse evento, um tanto insignificante para tantos, falar sobre o cd Follow The Elephants, de Aaron Thomas, aqui no blog me pareceu interessante. Mas também pode ser que não seja esse o meu verdadeiro motivo pra estar aqui, depois de tanto tempo sem conseguir - e nem ousar - escrever coisa alguma. Talvez seja porque tenho, nesse momento, em minhas mãos, um formulário para preencher. Um simples formulário de papel a4 preto e branco. Mas com um peso que, digamos, é, no mínimo, singular.

Um peso singular.

Acho que ele me amedronta, completamente. E acho que o fato de vir aqui escrever hoje tem a ver com o fato de ter que superar certos medos menores - como o medo de escrever e não conseguir, efetivamente, escrever - para conseguir superar o peso dessa folha.
Ou desse papel.

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Bom, mas vim pra falar do cd... e, como não falei, deixo a dica. www.porcariasonora.blogspot.com

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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Essa tal de palavra parece ter me deixado ao léu; a sós comigo mesma.
Numa estrada, em que a terra quente denuncia o sol que queima meu corpo.

Essa tal de palavra parece ter me deixado muda, sem fala, sem ela...
[Como ela?]

E aí, eu parei. Parei de tentar encontrar a palavra certa pra isso, ou para o que não é o isso. Parei porque visitei um dia meu corpo e me vi no espelho; e me senti vista por mim - eu me vi.
Parei porque percebi que estava ao léu e a sós de qualquer forma. Mas meus pés, eles me gritavam por uma terra que não fosse tão quente assim.

Ou talvez por um sol que não queimasse tanto assim.

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quarta-feira, 24 de junho de 2009

Sutilezas II

Havia saído pra escrever sobre filosofia.
Mas, naquele momento, naquele exato instante - súbito e volúvel - consegui sentí-la tocável.

Havia chegado na praça - cheia como em qualquer tarde de folga, onde as pessoas transmitem aquela hipocrisia que costumam denominar 'alegria'.

Mas, bom, tendo cá comigo a minha música e minhas folhas em branco, me viro.

Foi quando olhei para frente. Uma imagem que, mesmo que tente descrever por estas linhas; mesmo que haja reproduções e figuras num papel dessa imagem; mesmo que tudo isso fosse feito, não é possível que haja alguma forma de expressar o que eu realmente vi.

Era uma árvore grande, tal um ipê, intensamente cor-de-rosa.
Cor-de-rosa de rosa de ipê.
E todo esse rosa, a se derramar pelo gramado macio, se espalhava, espreguiçando-se em múltiplos e vivos "rosas" de flores de ipê. E toda a grama verde quase se perdia naquele mar de flores caídas sobre ela e subindo sobre a imensa árvore de cachos cor-de-rosa.

Aí, pensei: Acho que aquele banco ali do lado é um bom lugar.

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"And the 'cotton'...
Cotton's high, Lord,
so high."
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segunda-feira, 15 de junho de 2009

.Flush.

*Flush= rubor, resplendor.

Era uma grama macia. Eram soldados gritando 'Span! Span!'. Eram cheiros livres, de vento, de sol, (e,mais uma vez, de grama macia) que se tornaram odores de eau de cologne num escuro quarto mofado.

Foram sensações ilimitadas - pois que eram sensações libertas das correntes da linguagem. Foram experiências marcadas pela corrente da coleira; pelo escuro quarto mofado; pelo horror daqueles dias de prisão: sem água limpa e sem afeto. Mas, não, ele nunca foi impedido pela coleira do discurso.

Os, cheiros, os gostos, as reações alheias e os insights instintivos se entrecruzam e se transformam num emaranhado de possíveis experiências posteriores, já que produzem um tipo de raciocínio selvagem. Raciocínio não no sentido humano; mas no âmbito da causalidade, de uma causalidade natural e intrínseca aos animais - a todos eles. Que se apóia no agir instintivo; agir que aprende com as experiências passadas e acostuma-se aos efeitos das causas já percebidas.

Pensar sobre as sensações de um ser distinto do ser humano incomoda - pensar sobre algo que ultrapassa as fronteiras da linguagem é desafiador para um simples indivíduo mundano e humano.

Mas a causalidade natural que se apóia nos instintos ainda repousa nos seres humanos, ainda pesa muito na balança (e quem sabe até pesa mais que essa dita razão?). E o instinto, nesse momento, me manda arriscar; me manda entrar nessa mata, nesse selvagem que é o não-humano. Onde nunca poderei alcançar concreta e realmente.

Mas, bom, se ainda puder encostar a mão naquela lisa e fina superfície que nos separa tanto do selvagem, do não-pensar humano - ou do pensar não-humano? -, se ainda puder...

Que o acaso me guie.

(E que o rubor de Flush me faça sentir viva.)

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